Casa São Cristóvão, 1912-2012: um século de serviços sociais em Toronto

Encerra a residência

Nos primeiros anos, a maioria dos trabalhadores da Casa São Cristóvão residiam aí. Apesar de só pagarem a comida, aos seus salários era deduzido um 'privilégio de residência'. À medida que mais homens entravam na profissão de assistente social e um maior número de mulheres passar a exercer essa profissão mesmo depois de casadas, esse priviiégio foi perdendo o seu apelo inicial. Viver na residência já não se adequava à vida familiar. Em acréscimo, a tendência para o profissionalismo trouxe uma maior procura por horas de trabalho regulares, mas o estatuto assistente-residente tornava isso difícil. Em 1960, confrontado com a falta de financiamento, o Conselho Diretivo da Casa decidiu fechar a residência. Findava assim um capítulo na história da Casa. Ethel Dodds Parker, Assistente-Chefe em 1917-21, reparou em 1961:  “Parecia-me haver agora uma maior democracia que nos primeiros anos. Como se o facto de não existir um residência para os assistentes tornasse o acesso à Casa mais igual para todos." Em 1960 existiam catorze assistentes sociais a trabalhar na Casa a tempo inteiro. Desse grupo, dez tinham formação em trabalho social, ensino, música, arte ou educação física. Por esta altura a equipa da Casa refletia a diversidade racial, religiosa e étnica do bairro; já não eram todos membros das Igrejas Presbiterianas.

Separação com a Igreja Unida

Em 1960, sem consulta prévia com a Casa São Cristóvão, o Conselho da Missão das Casas de Acolhimento decidiu não renovar o seu subsídio anual e optou invés por dar esse dinheiro a uma instituição da igreja, onde os programas incluiam a reza, o trabalho pastoral e a educação Cristã. A Casa apelou ao Conselho para que reconsiderasse essa decisão, argumentando que a longa ligação entre as duas organizações havia fortalecido ambas as partes. O Conselho da Missão reconsiderou e o subsídio foi renovado. No entanto, a partir daí, as ligações entre as duas organizações enfraqueceram definitivamente. Em 1963, a Casa São Cristóvão incorporou-se como uma organização independente. A Casa continuou a receber um pequeno subsídio da Igreja Unida, e durante os próximos dez anos reservou uma posição para uma pessoa da igreja, normalmente um pastor reformado, que fazia visitas domicilárias e recomendava igrejas locais para os "não crentes."

Assistentes especializados para a juventude

Nos anos 1960, o distrito da Casa São Cristóvão foi considerado como o detentor da maior taxa de criminalidade na área metropolitana de Toronto. A Casa conhecia os problemas enfrentados pelos jovens e pelos seus pais, particularmente os conflitos inter-geraçionais nas famílias imigrantes, e entre aquelas que vinham de contextos rurais ou pequenas localidades do Canadá com dificuldades de ajustamento à cidade. Conforme os assistentes sociais da Casa, as crianças de famílias afetadas pela pobreza, que viviam na baixa da cidade à vários anos, encontravam-se presos a uma "subcultura de desespero.” O consumo de drogas, a delinquência e a prostituição foram notados no Relatório Anual de 1968 como problemas comuns entre os participantes dos clubes para jovens. A Casa contratou nessa altura assistentes especiializados para lidar com os jovens, para formar novos clubes e fazer trabalho de rua em vista a acabar os problemas relacionados com as gangues, protituição e a gravidez juvenil.

Charlyn Howze, o 'Anjo de Kensington'

O "Anjo de Kensington" foi o título carinhoso que os residentes de Kensington Market deram a Charlyn Howze, a primeira assistente para o desenvolvimento comunitário em Toronto, contratada pela Casa São Cristóvão em 1961. A sua confiança na capacidade dos indivíduos e grupos do bairro em se erguerem e exprimirem pelos seus próprios meios encorajou bastante ativismo e participação cívica pelos moradores do bairro. Em 1963, Howze auxiliou a Associação dos Moradores do Alexandra Park, orientando esse grupo através dos vários anos e fases de preparação e implementação do plano de reonovaçao urbana. Por altura da sua morte, em 1968, Howze havia estabelecido a Casa São Cristóvão como um dos líderes em desenvolvimento comunitário na zona central-oeste de Toronto. A dedicação da Casa ao trabalho comunitário foi expressado claramente na Declaração de Objetivos de 1966, que acentuou a resolução de problemas na comunidade através da ação coletiva dos cidadãos, e o papel da Casa em iniciar reformas, promovendo a participação democrática dos residentes do bairro, oferecendo apoio profissional a grupos de auto-ajuda.

A Banda de Tambores de Aço de Joe Brown

A Banda de Tambores de Aço da Casa São Cristóvão foi outra inovação dos anos 1960. Nos príncipios da década, um jovem de Trinidade e Tobago chamado Joe Brown criou uma banda de tambores de aço na Lower East Side de Nova Iorque de forma a combater a deliquência entre os jovens. Brown mudou-se para Toronto em 1963 e foi contratado pela Casa São Cristóvão para trabalhar com o população jovem negra da área. Aí ele formou outra a banda de tambores de aço, ao que os seus membros insistiram chamar a Joe Brown Juniors. A banda fora muito requesitada, dando espetáculos fora da Casa cerca de duas ou três vezes por mês. O ponto mais alto da sua carreira foi uma atuação no evento final da Campanha do United Appeal em 1965, um almoço em frente de 1200 pessoas na Crystal Ball do Hotel Royal York.

A comunidade participa na direção da Casa

A parceria que se foi intensificando entre a Casa São Cristóvão e a comunidade durante os anos 1960 e 1970, coíncidiu com a reexaminação das práticas e políticas internas da Casa. Em 1969, membros da comunidade passaram a ocupar lugares no Conselho de Diretores da Casa, e um sistema rotativo de diretores foi introduzido. Um Conselho de Membros foi formado para dar representação aos participantes dos programas no Comité de Programas, e residentes locais passaram a ocupar lugares nos comités de contratação de trabalhadores para posições disponíveis na Casa. Uma nova política para associados foi introduzida em 1975 extendendo o estatuto de voto a residentes ativos e trabalhadores da casa. Decidiu-se também que um terço do Conselho e metade do total de empregados da Casa teriam de ser residentes do bairro.

A primeira trabalhadora na Casa São Cristóvão a falar português foi Edith Clarke, contratada no início da década de 1960, que havia sido missionária em Angola. Clarke fazia visitas ao domicílio, oferecendo serviços de interpretação, e ajudava os imigrantes a encontrar emprego. Nos primeiros anos da Casa, os seus assistentes sociais tinham como objetivo a assimilação dos imigrantes aos hábitos 'Canadianos'. Por exemplo, em 1963, um relatório da Casa sugeria que as famílias portuguesas tinham dificuldades em tornarem-se "bons Canadianos" devido à barreira linguística e à "falta de desejo em adotar melhores formas de alimentação e hábitos de saúde." Os portugueses eram vistos como tendo "inclinação para abusar da gordura e dos hidratos de carbono nas suas dietas, consomem muito pouco leite, e vitaminas insuficientes." Mas ao longo da década de 1960, um maior reconhecimento dos costumes e valores culturais dos imigrantes começou a predominar na Casa.

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