Casa São Cristóvão, 1912-2012: um século de serviços sociais em Toronto

O Serviço de Interpretação Gratuito

Em 1971, a Casa São Cristóvão criou o Serviço Gratuito de Interpretação para ir ao encontro das necessidades dos imigrantes portugueses, preenchendo documentos, fazendo traduções, apoiando a procura por emprego, e oferecendo assistência em questões relacionadas com o Seguro de Desemprego. Em 1974 este Serviço recebia entre 700 a 900 pedidos de assistência por mês.

O Projecto Português a Oeste de Bathurst

Vários assistentes servindo de intérpretes para imigrantes de língua portuguesa haviam chegado à conclusão de que o tipo de serviços diretos que estes ofereciam apenas remediavam a curto prazo os problemas dos participantes e pouco faziam para aliviar os problemas de isolamento derivados de práticas culturais, barreiras linguísticas, e falta de informação acerca dos recursos dísponiveis na comunidade. Duas assistentes em particular, Isabel de Almeida e Sidney Pratt, começaram a planear novas formas para satisfazer as necessidades dos imigrantes portugueses, baseando-se no modelo de desenvolvimento comunitário, e indo para além da simples prestação de serviços diretos. Em 1974, Almeida e Pratt inauguraram o Projecto Português a Oeste de Bathurst (Portuguese West of Bathurst Project - PWBP), mais tarde chamado Serviços para Adultos. Este projeto inspirava-se num modelo de assistência social assente no desenvolvimento comunitário, cuja crescente influência na altura provinha dos Estados Unidos. Refletindo uma mudança ideológica nas atitudes e na forma de prestar serviços, a Casa São Cristóvão passou a privilegiar o desenvolvimento da autonomia e auto-determinação dos seus clientes, e a realização de campanhas de sensibilização e advocacia social, focando as necessidades mais preementes dos imigrantes.
Uma das primeiras tarefas do PWBP foi servir de mediador entre as famílias imigrantes portuguesas e os professores da Escola Católica Elementar St. Veronica, cuja população estudantil era 90% portuguesa. O PWBP foi convidado pelo reitor da St. Veronica para discutir os problemas com que a escola se deparava em compreender as características culturais das famílias portuguesas. A Casa São Cristóvão visitou centenas de famílias em suas residências; reuniu-se com professores para discutir as preocupações dos pais; encarregou um fotógrafo de recolher imagens das crianças a brincar e a fazer os seus trabalhos na escola; e produziu um vídeo para informar os pais acerca do que era o sistema escolar Canadiano, lançando assim uma ponte entre o sistema escolar canadiano e as famílias portuguesas.

O Grupo de Trabalho para a Literacia e o novo currículo de ensino ESL

No final do projeto piloto de três anos, os assistentes da Casa reconheceram que os adultos iletrados com poucos rendimentos tinham problemas semelhantes aos imigrantes recém-chegados. O Grupo de Trabalho para a Literacia (Literacy Working Group) foi criada em resposta a esta conclusão, e era composto por trabalhadores de várias agências de voluntários e organizações de ensino. O grupo desenvolveu novos materias de ensino, treino para professores, e novos métodos para a educação de adultos. Os materias curriculares foram desenhados para ajudar os participantes a desenvolverem a capacidade de pensamento independente e a aprender a exercer controlo sobre as suas próprias vidas.

Em colaboração com o West-End Y.M.C.A. e a St. Stephen’s Community House, o PWBP desenvolveu também um novo currículo para o ensino do Inglês como Segunda Língua (English as a Second Language - ESL) baseado no método do pedagôgo brasileiro Paulo Freire. Freire desenvolveu programas de literacia nos anos 1960 para as populações pobres do Brasil e tornou-se um pensador influente entre os movimentos pró-literacia em todo o mundo. Para além de ensinar as pessoas a ler, Freire defendia um currículo que promovêsse a justiça e a igualdade social, bem como a consciencialização das classes trabalhadoras. A partir de então, o novo currículo para o ensino de ESL nas agências comunitárias de Toronto passou a focar as realidades quotidianas dos imigrantes, bem como questões de justiça social, direitos do trabalho e a igualdade entre os sexos.

 

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